foi no sábado que os Suicide actuaram em Portugal.
aqui deixo um texto sobre o concerto:
«Sado-masoquismo na Meia-idade
Para o palco do sobem dois cinquentões a cair para o gordinho. Calças e casaco negros, de qualidade criticável, óculos de sol à malandro. Algures entre figurantes de Os Sopranos e donos de cinemas pornográficos. São os Suicide, duo nova-iorquino que é tudo o que escrevemos atrás, e mais: Alan Vega (voz) e Martin Rev (teclas) são "pais" de muito do que agora se designa por "electro". Desde finais dos anos 70, a sua estética pouco avançou: linhas de baixo sintetizado industrial, caixa de ritmos marciais, ocasionais espasmos de teclas. Sábado, no Paradise Garage, foram assim: electro-punk sem concessões. Para uma plateia essencialmente de conhecedores - jornalistas, músicos, editores. É assim a sina dos dois suicidas: importantes, mas só reconhecidos pelos pares que incorporaram as suas ideias ou os críticos que as reconhecem.
Suicide ao vivo é uma experiência sado-masoquista - tanto para eles como para nós. Longe dos autênticos motins que eram os primeiros concertos em Nova Iorque (o público português é muito bem comportado), foi mesmo assim uma hora em que os temas se alongaram e banharam na repetição até quase o insuportável, antes de vir a acalmia. Sado-masoquismo porque o poder (deles) e o gozo (nosso) são tão íntimos e viscerais que se aproximam perigosamente do prazer sexual.
Por vezes sente-se que não se deve estar a ver isto - não bate de acordo com a ideologia vigente de que só a novidade e a juventude são relevantes. São demasiado velhos, a música é demasiado impiedosa, as letras parecem querer levar-nos para sítios muito pouco recomendáveis. Mas vamos. Pelas exortações e ameaças do vocalista, quais "haikus" existencialistas: " Dream on!", "Fuck you", "Goddamn!", "Say it ain't so..." Vamos pelo sorriso maníaco e perturbante do teclista, que, qual pianista louco, ataca de cotovelos os teclados, mistura ritmos diametralmente opostos sem pestanejar. Não há aqui fingimento. Estes dois seres são o que tomaram, o que ouviram, os que os rodeiam. São os brancos a ritmar nas caves, são os negros a cantar nas ruas. No palco de Alcântara gingaram, roçaram o patético, mas foram peripatéticos. Foram despojados, deram minimalismo.
De sábio e de louco há muito naquelas duas velhas carcaças. Como o velho tio que já viu e viveu muito mal e quando fala do que pode vir a acontecer ("Daqui a quatro anos vamos ter Schwarzenegger como Presidente! Podem apostar o vosso dinheiro? Não acreditam ? Estão a rir? Depois chorem!") fica-se entre a incredulidade e o receio que efectivamente tal venha a suceder.
Suicide, então: sem-abrigo com o privilégio de poder gritar em discos e palcos. Música para o corpo que aniquila a mente. Não para dançar, que a dança implica uma relação de sedução - aqui há um ataque violento e abrupto, uma pré-violação. Note-se em "Cheerie": ninguém deve ir com o depravado que diz "I'll love you until the end of time" como se o fim do tempo fosse logo ali ao virar da esquina, quando ele lhe cortar a garganta.
Por Eurico Monchique»
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