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18.1.14
31.1.12
Apenas durmo mal
debruçada no parapeito
vestida com um certo desleixo
a sombra a giz desenhada no chão
apenas durmo mal
alguma informação
um mapa mal desenhado
serei suprema
nunca serei nada
todo o teatro inútil
o razoável insucesso
não tenho jeito para estas coisas
nunca devia ter hesitado
meti-me para dentro
roupa interior feia
a menina devia ser fuzilada
juntamente com as suas companheiras
vestida com um certo desleixo
a sombra a giz desenhada no chão
apenas durmo mal
alguma informação
um mapa mal desenhado
serei suprema
nunca serei nada
todo o teatro inútil
o razoável insucesso
não tenho jeito para estas coisas
nunca devia ter hesitado
meti-me para dentro
roupa interior feia
a menina devia ser fuzilada
juntamente com as suas companheiras
28.1.12
Filha de duas mães
filha de duas mães
adoro vesti-las de igual
tenho andado à tua procura
para te amar
sobre a mesa posta
sem nenhuma vaidade
ensinar-te-ei meu amor
a praticar a caridade
nunca direi saudade
ligo pouco ao que se diz
mas não levo muito a mal
a ideia de ser feliz
adoro vesti-las de igual
tenho andado à tua procura
para te amar
sobre a mesa posta
sem nenhuma vaidade
ensinar-te-ei meu amor
a praticar a caridade
nunca direi saudade
ligo pouco ao que se diz
mas não levo muito a mal
a ideia de ser feliz
26.1.12
Apanhada a roubar
apanhada a roubar
como uma criança
de vestido branco e sandálias
consertei a figurinha
um homem assim humilde
lançado aos cães
não sinto quase nada
uma ligeira dor de cabeça
gostavas de ser feliz
farei o que puder para te impedir
a cada novo dia o duro preço
não consigo resistir
nesse dia beijei muita gente
se te magoei não foi intencional
espero ainda que me perdoes
uma inocente inclinação para o mal
como uma criança
de vestido branco e sandálias
consertei a figurinha
um homem assim humilde
lançado aos cães
não sinto quase nada
uma ligeira dor de cabeça
gostavas de ser feliz
farei o que puder para te impedir
a cada novo dia o duro preço
não consigo resistir
nesse dia beijei muita gente
se te magoei não foi intencional
espero ainda que me perdoes
uma inocente inclinação para o mal
22.1.12
Um rapaz mal desenhado
gostei de o ter por cá
o teu corpo delicado e quente
um rapaz mal desenhado
obedecia-me cegamente
um rapaz vestido de rapariga
depois de tão belo começo
a dar-me a mão por debaixo da mesa
eu bem sei que não o mereço
ambiciono um coração
perco a noção da subtileza
sabes que nunca te encorajei
levanta-te e paga a despesa
(perdoa-me a indelicadeza)
não julgues que não tentei
és pouco para tanto desejo
e é toda tua a culpa
dos embaraços em que me vejo
o teu corpo delicado e quente
um rapaz mal desenhado
obedecia-me cegamente
um rapaz vestido de rapariga
depois de tão belo começo
a dar-me a mão por debaixo da mesa
eu bem sei que não o mereço
ambiciono um coração
perco a noção da subtileza
sabes que nunca te encorajei
levanta-te e paga a despesa
(perdoa-me a indelicadeza)
não julgues que não tentei
és pouco para tanto desejo
e é toda tua a culpa
dos embaraços em que me vejo
20.1.12
Na aula de dança
na aula de dança
a audácia do par
um grande assombro
tomou conta de nós
um íntimo remorso
à porta do vizinho
uma discreta condenação
serve-me de castigo
não quero o amor
o que me entusiasma é a boa imitação
que ideia tenho eu das coisas
meu ingénuo coração
tento ler nos lábios
por detrás do espelho
um sorriso contrafeito
a tirar a aliança do dedo
a audácia do par
um grande assombro
tomou conta de nós
um íntimo remorso
à porta do vizinho
uma discreta condenação
serve-me de castigo
não quero o amor
o que me entusiasma é a boa imitação
que ideia tenho eu das coisas
meu ingénuo coração
tento ler nos lábios
por detrás do espelho
um sorriso contrafeito
a tirar a aliança do dedo
18.1.12
O ar cansado dos meus vestidos
o ar cansado
dos meus vestidos
a minha mão perdida
antes de tudo isto
no teu corpo adormecido
imóvel e silencioso
desenho um mapa
do nosso grande amor
os lábios ainda incertos
ao fim de cada dia
um lugar na minha cama
agora ocupado
já te ensinei o amor
agora há pouco a fazer
a seguir vem o sono
e eu que tinha tanto para te dizer
dos meus vestidos
a minha mão perdida
antes de tudo isto
no teu corpo adormecido
imóvel e silencioso
desenho um mapa
do nosso grande amor
os lábios ainda incertos
ao fim de cada dia
um lugar na minha cama
agora ocupado
já te ensinei o amor
agora há pouco a fazer
a seguir vem o sono
e eu que tinha tanto para te dizer
26.1.10
4.11.09
3.7.09
21.1.09
1969-2009
por mais que tente, não consigo passar para palavras a tristeza que sinto por mais um amigo que se despede...
até sempre, João!
até sempre, João!
20.1.09
1969-2009
João Aguardela: o fim antes do tempo
Conheci-o em finais dos anos 80, quando João Aguardela gozava o sucesso dos Sitiados e o hit "Esta Vida de Marinheiro" tocava em tudo quanto era rádio. Na altura, confesso, pareceu-me um músico presunçoso e pouco afável. Anos mais tarde, já os anos 90 decorriam, encontrei-me com ele duas vezes e trocámos correspondência. A tal ideia de presunção fora, afinal, meramente passageira. João Aguardela mostrara-se humilde e atencioso. Trocámos correspondência algumas vezes e sempre se interessou pelo meu trabalho musical. Megafone era o seu projecto musical mais pessoal (juntamente com o projecto de música electrónica Groovebox), aquele em que o músico mais se empenhou em criar uma linguagem estética nova a partir da conjugação da tradição musical portuguesa com ritmos electrónicos. Lançou quatro discos como Megafone, quatro manifestos magníficos de criatividade e invenção sonora, misturando recolhas musicais do etnomusicólogo José Alberto Sardinha com sonoridades drum'n'bass. Há três anos surgiu o projecto A Naifa, que projectou João Aguardela para a ribalta mediática que tinha conhecido, muitos anos antes, com os Sitiados. Uma banda que procurou (procura) outorgar à musicalidade portuguesa uma modernidade inaudita e original, uma sensibilidade pop contemporânea. Mais uma vez, Aguardela colocava a cultura portuguesa em primeiro plano sem esquecer o ensejo de inovação estética, à semelhança das correntes pop de vanguarda que corriam lá fora.
Vi o João, pela última vez, há menos de um ano atrás, no momento em que se preparava para fazer o "check sound" de um concerto d'A Naifa no Teatro Municipal da Guarda. Falámos cinco minutos. Estava magríssimo e nem sequer ousei, por pudor, perguntar-lhe pela doença que padecia (cancro do estômago). Mas o João, naturalmente, disse-me que já se encontrava em recuperação após a extracção de uma porção do estômago. Engoli em seco e desejei-lhe as maiores felicidades pessoais e profissionais (para o concerto dessa noite). O concerto d'A Naifa foi magnífico. Uns meses mais tarde, perto do Verão de 2008, vi uma reportagem na televisão sobre um espectáculo d'A Naifa. Reparei que o João Aguardela já não tocava viola-baixo na banda. Tinha sido substituído, pelo que depreendi que o seu estado de saúde se tinha deteriorado...
Desde essa altura, nunca mais ouvi falar do João. Mas confesso, agora com tristeza, que por vezes pensava como andaria a saúde do Aguardela sempre que ouvia A Naifa. As minhas filhas (6 e 9 anos) são fãs e conhecem as canções de cor. Mas no meu íntimo, temia o pior. Que o Aguardela já não tivesse forças para lançar um novo disco com A Naifa, ou com Megafone ou... Até que hoje leio a notícia da sua morte, aos 39 anos.
Um país que venera siglas como CR7, figuras como Tony Carreira e quejandos, mas que ignora um músico que contribuiu para solidificar uma certa ideia de identidade musical portuguesa, não merece muito respeito.
Paz à sua alma.
por Victor Afonso
Conheci-o em finais dos anos 80, quando João Aguardela gozava o sucesso dos Sitiados e o hit "Esta Vida de Marinheiro" tocava em tudo quanto era rádio. Na altura, confesso, pareceu-me um músico presunçoso e pouco afável. Anos mais tarde, já os anos 90 decorriam, encontrei-me com ele duas vezes e trocámos correspondência. A tal ideia de presunção fora, afinal, meramente passageira. João Aguardela mostrara-se humilde e atencioso. Trocámos correspondência algumas vezes e sempre se interessou pelo meu trabalho musical. Megafone era o seu projecto musical mais pessoal (juntamente com o projecto de música electrónica Groovebox), aquele em que o músico mais se empenhou em criar uma linguagem estética nova a partir da conjugação da tradição musical portuguesa com ritmos electrónicos. Lançou quatro discos como Megafone, quatro manifestos magníficos de criatividade e invenção sonora, misturando recolhas musicais do etnomusicólogo José Alberto Sardinha com sonoridades drum'n'bass. Há três anos surgiu o projecto A Naifa, que projectou João Aguardela para a ribalta mediática que tinha conhecido, muitos anos antes, com os Sitiados. Uma banda que procurou (procura) outorgar à musicalidade portuguesa uma modernidade inaudita e original, uma sensibilidade pop contemporânea. Mais uma vez, Aguardela colocava a cultura portuguesa em primeiro plano sem esquecer o ensejo de inovação estética, à semelhança das correntes pop de vanguarda que corriam lá fora.
Vi o João, pela última vez, há menos de um ano atrás, no momento em que se preparava para fazer o "check sound" de um concerto d'A Naifa no Teatro Municipal da Guarda. Falámos cinco minutos. Estava magríssimo e nem sequer ousei, por pudor, perguntar-lhe pela doença que padecia (cancro do estômago). Mas o João, naturalmente, disse-me que já se encontrava em recuperação após a extracção de uma porção do estômago. Engoli em seco e desejei-lhe as maiores felicidades pessoais e profissionais (para o concerto dessa noite). O concerto d'A Naifa foi magnífico. Uns meses mais tarde, perto do Verão de 2008, vi uma reportagem na televisão sobre um espectáculo d'A Naifa. Reparei que o João Aguardela já não tocava viola-baixo na banda. Tinha sido substituído, pelo que depreendi que o seu estado de saúde se tinha deteriorado...
Desde essa altura, nunca mais ouvi falar do João. Mas confesso, agora com tristeza, que por vezes pensava como andaria a saúde do Aguardela sempre que ouvia A Naifa. As minhas filhas (6 e 9 anos) são fãs e conhecem as canções de cor. Mas no meu íntimo, temia o pior. Que o Aguardela já não tivesse forças para lançar um novo disco com A Naifa, ou com Megafone ou... Até que hoje leio a notícia da sua morte, aos 39 anos.
Um país que venera siglas como CR7, figuras como Tony Carreira e quejandos, mas que ignora um músico que contribuiu para solidificar uma certa ideia de identidade musical portuguesa, não merece muito respeito.
Paz à sua alma.
por Victor Afonso
19.1.09
1969-2009
Morreu o músico João Aguardela
Morreu ontem em Lisboa o músico João Aguardela, que faria 40 anos em Fevereiro. Vocalista, líder e fundador dos Sitiados, banda que conheceu o sucesso nos anos noventa, Aguardela foi também o mentor de projectos como Megafone, Linha da Frente (formado por vocalistas de várias bandas nacionais interpretando textos de poetas portugueses) e A Naifa, o seu mais recente projecto com Luís Varatojo, com três álbuns editados aclamados pela crítica e pelo público.
Aguardela, vítima de cancro, será cremado amanhã, às 16h00, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
"Criador com capacidades fora do comum, inovador, Aguardela soube antecipar tendências e lançar projectos esteticamente inéditos, sempre numa abordagem marcada pela defesa da língua e da cultura portuguesas. Firme nas convicções, determinado nos objectivos, invulgar na forma de ser e estar na vida, desde sempre grangeou respeito e admiração no meio musical, ainda que nunca tivesse procurado o estrelato", refere um comunicado da família e amigos.
in: o público
Morreu ontem em Lisboa o músico João Aguardela, que faria 40 anos em Fevereiro. Vocalista, líder e fundador dos Sitiados, banda que conheceu o sucesso nos anos noventa, Aguardela foi também o mentor de projectos como Megafone, Linha da Frente (formado por vocalistas de várias bandas nacionais interpretando textos de poetas portugueses) e A Naifa, o seu mais recente projecto com Luís Varatojo, com três álbuns editados aclamados pela crítica e pelo público.
Aguardela, vítima de cancro, será cremado amanhã, às 16h00, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
"Criador com capacidades fora do comum, inovador, Aguardela soube antecipar tendências e lançar projectos esteticamente inéditos, sempre numa abordagem marcada pela defesa da língua e da cultura portuguesas. Firme nas convicções, determinado nos objectivos, invulgar na forma de ser e estar na vida, desde sempre grangeou respeito e admiração no meio musical, ainda que nunca tivesse procurado o estrelato", refere um comunicado da família e amigos.
in: o público
1969-2009
Faleceu ontem 18 de Janeiro de 2009 em Lisboa o músico João Aguardela, que faria 40 anos em Fevereiro. Vocalista, líder e fundador dos Sitiados, que fizeram enorme furor nos anos noventa, Aguardela foi também o mentor de projectos como Megafone (quatro discos de um trabalho muito pessoal, que cruza a recolha de música tradicional portuguesa com sonoridades electrónicas), Linha da Frente (formado por vocalistas de várias bandas nacionais interpretando textos de poetas portugueses) e A Naifa, o seu mais recente projecto com Luís Varatojo, com três álbuns editados e dezenas de concertos aclamados pela crítica e pelo público.
Criador com capacidades fora do comum, inovador, Aguardela soube antecipar tendências e lançar projectos esteticamente inéditos, sempre numa abordagem marcada pela defesa da língua e da cultura portuguesas.
Firme nas convicções, determinado nos objectivos , invulgar na forma de ser e estar na vida, desde sempre granjeou respeito e admiração no meio musical, ainda que nunca tivesse procurado o estrelato.
Vítima de cancro, morreu no Hospital da Luz, aos 39 anos. Deixa uma obra invejável e saudade à família e amigos. Como escreveu o João, «os dias sem ti/ são todos iguais/ são dias sem fim/ são dias a mais».
Ricardo Alexandre, amigo do João. in: a naifa
Criador com capacidades fora do comum, inovador, Aguardela soube antecipar tendências e lançar projectos esteticamente inéditos, sempre numa abordagem marcada pela defesa da língua e da cultura portuguesas.
Firme nas convicções, determinado nos objectivos , invulgar na forma de ser e estar na vida, desde sempre granjeou respeito e admiração no meio musical, ainda que nunca tivesse procurado o estrelato.
Vítima de cancro, morreu no Hospital da Luz, aos 39 anos. Deixa uma obra invejável e saudade à família e amigos. Como escreveu o João, «os dias sem ti/ são todos iguais/ são dias sem fim/ são dias a mais».
Ricardo Alexandre, amigo do João. in: a naifa
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