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27.2.24

Eu Sou O Vento

OUTRO – Mas quando a vida vive ouvem-se coisas, vêem-se coisas. É assim mesmo.
UM – É. Pausa.
OUTRO – E disso tu não gostas. Pausa. Tu não gostas que a vida viva. Pausa. Porque se tu gostasses, pois – Pausa. Mas de estar no mar gostas.
UM – Gosto. Pausa. Não, não, não eu –
OUTRO – O quê?
UM – Eu estou aqui, é aqui, sim, é eu estou no meu lugar, cada um tem o seu lugar. Eu estou no meu lugar. Tudo tem o seu lugar.


 

26.2.24

Eu Sou O Vento

UM – Certeza nunca se pode ter. Pausa. Vamos até lá.
OUTRO – Vamos.
UM – Queres ir.
OUTRO – Por que não.
UM – Vamos. Pausa.
OUTRO – E tu gostas que esteja tudo em silêncio.
UM – Gosto.
OUTRO – E é por isso, é, é por isso que gostas tanto, de estar no mar.
UM – Talvez.



25.2.24

Eu Sou O Vento

UM – São só palavras. Pausa.
OUTRO – Mas olha, sim não me podes contar, mas o que é que é tão bom, o que é que te faz gostar tanto, de vir, sim, de vir para o mar.
UM – Claro que posso.
OUTRO – Então diz-me.
UM – Eu – Pausa – eu, sim, estás a ver ali ao fundo, as ilhas e os recifes, ali ao fundo, as rochas, cinzentas, as rochas todas cinzentas, e estás a ver as pedras na margem, grandes, redondas, cinzentas, estás ver, ali, ali ao fundo.
OUTRO – Estou.
UM – E estás a ver aquela enseada ali, ali, ali onde a ilha parece que abre as pernas, ali onde a ilha abre uma enseada, ali ao fundo, estás ver.
OUTRO – Estou.
UM – Podemos ancorar ali. O barco fica seguro ali. Vamos até lá, vamos lançar a âncora ali.
OUTRO – Vamos, sim vamos.
UM – Então vamos. (Escadote.)


 

16.2.24

Eu Sou O Vento

OUTRO – Não gostas dos outros, e não gostas de ti.
UM – É, é isso. Pausa.
OUTRO – De que é que não gostas, em ti.
UM – Não gosto de não ser nada.
OUTRO – Tu não és nada.
UM – Não. Pausa.


 

8.2.24

Eu Sou O Vento

OUTRO – Mas.
UM – Sim.
OUTRO – Sim, pois, sim mas a vida, sim não é assim tão má, pois não, pode-se estar, em muitos sítios.
UM – Pode, talvez, ou talvez não haja, nenhum sítio onde se possa estar, mas uma pessoa tem, sim tem de estar num sítio qualquer, só que eu não aguento o ruído, o ruído dos outros, o ruído de tudo o que acontece, oprime-me, cerca-me.
OUTRO – Tu queres estar sozinho.
UM – Eu não posso estar sozinho.
OUTRO – Não podes estar sozinho, e não podes estar onde estão os outros.
UM – Não aguento o barulho.
OUTRO – Tu queres silêncio.


 

7.2.24

Eu Sou O Vento

OUTRO – E depois aconteceu. Aquilo que tu tinhas tanto medo que acontecesse, sim que viesses a fazer, aconteceu mesmo.
UM – Foi. Pausa.
OUTRO – É horrível.
UM – Eu estou bem.
OUTRO – Pois.
UM – Desapareci. Desapareci com o vento.
OUTRO – Desapareceste.
UM – Desapareci. E já não existo –
OUTRO – Não existes.
UM – Não, não existo.


 

26.1.24

Eu Sou O Vento

UM – Eu não queria. Mas foi o que eu fiz.
OUTRO – Mas foi o que tu fizeste.
UM – Foi.
OUTRO – Aconteceu foi. Mas tu tinhas, sim tu tinhas tanto medo que acontecesse. Sim tu tinhas-me dito, falaste-me disso.
UM – Falei. Pausa.

 


18.1.24

Eu Sou o Vento

«Eu Sou o Vento é  uma peça do autor norueguês Jon Fosse. (...) com a interpretação de Cláudio da Silva e Dinarte Branco e encenação de Pedro Marques.

É uma peça belíssima, onde o silêncio que se constrói à volta de duas personagens num barco no alto mar se torna viagem de conhecimento. Cem anos depois da ruptura naturalista de Ibsen e Strindberg é mais uma vez dos países nórdicos que vem uma das vozes mais distintas da dramaturgia contemporânea. Deixo-vos uma pequena declaração de uma entrevista com o autor que foi publicada na Revista Artistas Unidos, nº 13.

"Na Hungria, disseram-me muitas vezes, dizem que quando uma noite no teatro é boa, um anjo passa pelo palco, uma vez, duas vezes, várias vezes. E, para mim, esse momento é a essência do teatro: o teatro é o momento em que um anjo passa pelo palco. O que é que acontece nesses momentos? Claro que não sei, ninguém sabe, porque ou acontece ou não; numa noite acontece num dado momento da peça, noutra noite num outro momento.
Para mim, estes momentos intensos e cristalinos, apesar de inexplicáveis, são momentos de compreensão: são momentos em que as pessoas que estão presentes, os actores, o público, experimentam juntos algo que os faz compreender alguma coisa que até aí nunca tinham compreendido, pelo menos não como até aí o tinham compreendido. Mas esta compreensão não é unicamente intelectual; é uma espécie de compreensão emocional que, como eu disse, é principalmente inexplicável, pelo menos intelectualmente. Provavelmente não pode ser explicada, só pode ser mostrada e compreendida através de emoções."»
 

adaptação de um texto de Pedro Marques