um texto sobre A Branca de Neve de João César Monteiro.
«Branca de Neve, de 2000, leva o cinismo e o escárnio às raias do insuportável. Baseado num grande poema do escritor suíço Robert Walser, o filme apresenta uma possível continuação para a fábula da Branca de Neve. E, surpresa!, descobrimos que a história do conto de fadas era um tanto mentirosa, a madrasta não era tão malvada e o príncipe, no fundo, era muito moralista. O mais curioso, contudo, foi a maneira com a qual Monteiro decidiu fazer o filme: absolutamente sem imagens, com a tela toda preta enquanto decorrem os diálogos. Imagens, só entre as cenas (uns 4, 5 segundos por vez) e nos créditos iniciais. Perguntado por jornalistas por que teria feito o filme daquela forma, disse que o único lugar do set em que dava para pendurar o casaco era em frente à câmara.
Monteiro morreu de mal com o público português, que repudiou fortemente o humor selvagem e o dispositivo experimental de Branca de Neve (em termos de radicalidade de dispositivo em humor, só comparável ao happening de Andy Kaufman lendo O Grande Gatsby inteirinho num show seu). Realizado com incentivos do estado português, o filme foi alvo fácil para a classe média portuguesa, que naturalmente prefere histórias de água com açúcar a experiências artísticas mais vigorosas - e tanto pior, já que se precisa de um mínimo de actividade mental para cogitar o que fazer com tanta tela preta ao longo de 70 minutos.»
escrito por Ruy Gardnier