24.5.09

o mal

está por nascer a minha mão direita. as palavras que aqui lê, não foram ainda escritas. finge que está a ler, mas tudo não passa de uma actuação. decidiu representar de leitor e escolheu, como o fado, um vestido preto.

o seu livro é a sua cidade e o mundo acontece emoldurado à janela. pensa na sua mãe, com uma mama a menos, no seu pai, no coração cada vez mais fraco do seu pai, e os seus olhos abrem-se à largura de uma cicatriz, os seus olhos são uma cicatriz que a sua mãe tem no peito.

pensa nos médicos, nas consultas, nas receitas, num medicamento novo, importado dos estados unidos, que encomendou na farmácia. pensa na peruca mais adequada, na prótese mais adequada, no coração mais adequado, na inevitabilidade de um transplante.

finge que nunca leu a palavra cura.

pensa no seu irmão, no dinheiro que lhe emprestou, pensa na sua irmã, no dinheiro que a sua irmã emprestou ao seu irmão, na fortuna gasta num bilhete para o inferno.

é provável que lhe passe pela cabeça tomar alguma coisa, só uma vez, só para experimentar. é provável que, por um momento, deseje ser o esquecimento, a morte vestida de preto.

mas como bom actor que é, representa teatralmente, leva a sua mãe à quimioterapia, vai visitar o seu pai com a esperança nas mãos, contrai um empréstimo, devolve à sua irmã o que o seu irmão não pode pagar, procura uma clínica, discreta, de preferência fora do país, telefona-lhe, diz-lhe que tem um presente, uma viagem com um regresso feliz.

finge que pode escrever a palavra cura.
e finge a fingir que cura.