está de costas e não ouve o que penso.
a esta distância, poderia matá-la.
o seu cabelo, diz-se,
é como as crinas de um cavalo em fuga.
encolhida como está, não o vejo.
digo o seu nome para que se volte,
a minha voz subindo de tom entre sílabas,
antecipando o voo circular de aves pretas,
a resolução do seu olhar para esta noite,
a definição geral da vida,
ou a explicação só deste momento,
mas não se volta.
descalça-se e começa a despir-se
mecanicamente,
concentrada na sua tarefa,
fria, profissional,
facilmente se vê que é competente,
indiferente a quem está atrás de si,
ou ao efeito da sua pele exposta,
como quem diz: beija-me,
ao mesmo tempo que diz: bate-me,
uma mulher pronta a usar,
que sabe ser observada e desejada,
molha os dedos num copo de água
para se humedecer e,
sempre de costas,
oferece-me as nádegas.