cada uma tem a pele que a língua lhe deu e que a linguagem lhe atribui. não
podemos dizer cadeira sem imaginar uma pele de madeira forrada a veludo.
mas também não podemos dizer que um fruto de intensa pele vermelha é
um morango absoluto. experimente-se colocar uma palavra num quadrado
preto de um tabuleiro de xadrez. se essa palavra se movimentar para a frente,
como tantas vezes o faz no texto que escrevemos, passa a estar num quadrado
branco. mas a nossa memória há-se sempre guardá-la num quadrado preto,
como se de uma gaveta se tratasse. a palavra tem a sua própria luz, não se
apaga por ficar retida. pode avançar para a esquerda e para a direita,
apoliticamente, e ser incorrecta se assim o desejar. nenhuma regra impede a
palavra ao seu juízo, como nada lhe é inimputável. uma vez em jogo, actua
como um instrumento decisivo, altera e move tudo à sua volta. se a palavra
inteligência quiser, pode transformar-se numa doença de pele. xeque-mate.