23.6.11

Manifesto CXXIV

A certeza

talvez o oceano se cale abrupto sobre as rochas
talvez o amanhã seja uma nuvem que vem acariciar os olhos
talvez hoje dispa este corpo gasto cobrindo o esqueleto
talvez a tua voz navegue pelo tempo para me sussurrar as palavras esquecidas, as palavras amargas
talvez o tempo seja o tempo que se passa guardado num segundo
e talvez esse tempo corra a eternidade

talvez o mundo termine amanha na palma da minha mão
talvez jorre sangue do interior da terra e ela fale até não mais se calar
talvez ouça o silêncio que guardas no teu peito
talvez os braços existiam para correr entre folhas, folhas e mais folhas alvas envelhecidas pelos dias que se demoram
talvez a vida seja um pedaço de algodão a voar no asfalto
e talvez esse voo dure o tempo de todo o tempo

talvez a saudade possa ser guardada em cofres fortes, esquecida, divina

talvez amanhã se esvazie o copo sobre a toalha que cobre a mesa
talvez amanhã não exista mesa, toalha, copo
talvez amanhã nada valha a pena, porque o amanhã é apenas um talvez



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