Tinha me esquecido de dar corda ao relógio da sala, de correr as cortinas de pano grosso, de abrir as janelas, de como se articulam os lábios, de mudar a água nas jarras, do lixo que se foi acumulando, da entoação de uma pergunta, da afirmação de uma resposta, de como se fala, falando simplesmente.
A decisão de ir à casa de banho, procurar o meu reflexo num ínfimo espelho, arrumado algures no fundo do móvel. Ainda reconheço as mãos, ainda que envelhecidas, enquanto limpo o pó acumulado numa das faces do espelho.
Do lado de lá alguém prisioneiro, conto as rugas: uma, duas, três, quatro. Cansaço. Identifico cada um dos sinais escuros que começaram a crescer quando me fechei aqui.
Uma mancha escura cresce debaixo da linha dos olhos e mistura-se com o tom de pele escurecida. Olheiras. Encontro um cigarro meio fumado, mas não sei onde deixei o isqueiro.
Retorno à sala, com o cigarro apagado apertado entre os lábios. Finjo que o fumo, consigo ver o fumo subir em espirais pelo ar saturado que enche o espaço fechado da sala.
Talvez devesse ir ter com a minha gente, procurá-los lá fora, mas desconheço a localização precisa da saída.
Ainda me ouço, sabes usar a tua sombra que se alonga pelas paredes, para descobrir que estás, simplesmente à espera: morta? E que sangue é este que me circula inconsequente?
Im.Possibilidade