28.11.12

Balada XXII

sem mais delongas
é chegada a hora de me despedir
amigo que te sentas comigo
nesta mesa esquecida num canto qualquer

esvaziamos as garrafas
enchemos os copos
fumamos todos os cigarros
medimos o tempo
olhando pela lupa
enquanto riscávamos os dias em dobras na pele

lá fora a noite
lá fora o dia
em nós as trevas
encerradas no peito húmido
saturadas de ar bafiento
lá fora o dia
lá fora a noite
em nós o vazio
que cresce dentro dos ossos
e queima o que resta das entranhas

há muito que fomos
há muito que esquecemos o que somos
esqueletos sorridentes, histórias de assombrar

despeço-me de ti, querido amigo
sem mais delongas
tu que há muito não te sentas à minha mesa
que há muito me ensinaste o sabor amargo da partida

e que sei eu ainda
amanhã alguém me virá buscar
mas muito antes de o caixão sair do umbral da porta
talvez tudo arda num ápice, talvez as paredes restem em pé


Im.Possibilidade