8.1.04

Eduardo

alguns textos de um amigo que se foi embora, Eduardo Guerra Carneiro de seu nome.

"O desafio, afinal tão simples!, de prosseguir um texto, vendo bem perseguir, conseguir mesmo despir-me das pequenas e grandes vaidades, como já foi dito. Dizias: o texto. Eu pensava na intriga a construir, nos antigos manuscritos onde se falava de música, sinfonia, órgão, retábulos de igreja, o que se liga à então recente leitura de qualquer clássico. Órgãos do prazer: funções vitais em totalidade. Procuro a linha enredada na complicada teia de aranha que em volta de mim próprio enlacei: aqui está a razão do desafio; os nós a desfazer; a pontuação a assinalar um modo de avançar «todo» sem receio mais que o discurso baço, vago, maricas afinal (...)
Daí, daqui: os textos que perseguem e rasgam o próprio ventre para nascerem pelas suas próprias mãozinhas: impressão digital marcada a sangue. Direi. Um corpo em movimento; a infância da invenção; o salto mortal da literatura; a destruição (corrosão) dos vocábulos ..."

Uma Teoria (da) Prática, in & etc, nº 9, 15/05/1973


"Algumas palavras são mais que o som.
Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.
Palavras que demoram na boca
com o sabor da manhã de Outubro, o claro gosto
da terra húmida, castanha até doer
..."

Zero, O Perfil da Estatua, 1961


"Estamos no extremo ocidental de uma Europa gangrenada que teima ainda em conservar limpos os punhos e o colarinho, embora tenha podres nas meias e as cuecas estejam borradas de medo antigo, caca seca, agarrada aos Pirinéus, a montecarlos, montecassinos, urais ou andorras do báltico.
Estamos e continuaremos a estar até que a bomba rebente nos nossos tomates inchados, na goteira do sexo, nas moscas que teimam em disputar-nos a cerveja, nas putas que envolvem em dança os cromados dos bares de hotéis de gare. Poârto ou Parises; Tomar ou Bruxelas; Leiria ou Malmo: a mesma merda.
Estamos quase a rebentar as costuras deste maldito soutien com que nos apertam as mamas da invenção; quase a rebentar as cuecas com que nos espartilham os caralhos da revolta. De pé, ó vítimas da Europa decadente! Nuzinhos até Trancoso! Com pezinhos de lã até Almeida!.
Avançar assim, descobrindo novo discurso, importante porque me importa, também me faz bem, talvez te ajude, vos ajude, ajude afinal a acender o rastilho que vai fazer rebentar a bomba ..."

À Luz de Novembro, in Como Quem Não Quer a Coisa, & etc, 1978


Algumas Obras:
O Perfil da Estátua, Silex, 1961
Corpo Terra, Ed. Autor, 1965
Alguma Palavras, Nova Realidade, 1969
Isto Anda Tudo Ligado, Cadernos Peninsulares, 1970
É Assim Que se Faz a História, Assírio & Alvim, 1973
Como Não Quer a Coisa, & Etc, 1978
Dama de Copas, & Etc, 1981
Profissão de Fé, Quetzal, 1990
Lixo, & Etc, 1993
O Revólver do Repórter, Teorema, 1994
Outras Fitas, Teorema, 1999
A Noiva das Astúrias, & Etc, 2001