8.1.04

Eduardo Guerra Carneiro

mais uns poemas de Eduardo Guerra Carneiro:

As Cores

Amarelo sobre lilás, faixas de
laranja e muito verde. Do outro lado
o castanho terroso, o azul pálido,
alguma prata na neblina.
Rompe-se depois o vermelhão,
entre o ultramarino, e um vago
sépia surge nos contornos brancos.
O voo cinzento das aves risca
esta paisagem e apenas em fundo,
tremura junto à praia, a rebentação.
Quase sem tempo, nem espaço
para os versos, distingo ainda
um ovo de luz a afundar-se
enquanto a Outra assume a dignidade.

Profissão de Fé
Quetzal Editores
1990



Disseste um dia: "Tive um sonho
em que sofrias muito
e eu não sabia o que fazer por ti."
Por ti nada posso fazer agora.
A não ser esperar encontrar-te
noutra galáxia de puras
borboletas de luz. Magoa-me
sentir que tanto havia ainda
para dizer e fazer! Olha:
visitas-me nessa transparência
infantil, feita de pequenos nadas
que são tudo - consolo
de um solitário coração
que já nem sequer é caçador.

Profissão de Fé
Quetzal Editores
1990




Descansa, borboleta branca,
em minhas mãos abertas e retoma
o teu breve voar de um só dia.
Vens da noite misteriosa, espírito
de outro corpo. Que luz
de súbito se faz nesta loucura?
Melancolia, talvez, morte
chorada. Lanço-te ao vento.
Para que o fogo não volte
a queimar-te as asas.
A medo, terror mesmo, horas passadas,
olho-te tombada nesta sala.
Regressaste aqui, para morrer.
Mas à vida te devolvo. Voa, borboleta!

Profissão de Fé
Quetzal Editores
1990