20.3.04
a guerra e a paz
Costuma julgar-se que a guerra e a paz se excluem uma à outra. Mas talvez o que nós chamamos paz sempre tenha sido um parte da guerra. Não quero dizer que a paz tem sido o tempo em que os homens se treinam e armam para a guerra. Com certeza que isto é verdade. Mas quero dizer mais qualquer coisa. Talvez a guerra e a paz tenham sido fases de uma única forma total de comportamento, uma única forma total de sociedade. Se isto fosse assim, a guerra teria de ser vista não como a destruição da paz mas como aquilo em que a paz culmina. E assim seria uma ilusão falar de uma guerra para acabar com a guerra uma vez que não haveria paz nenhuma capaz de se proteger a si própria. Uma sociedade irracional como a nossa está dividida em classes. Isto institucionaliza a injustiça. A injustiça não é um estado passivo mas sim um estado de cada vez maior conflito. Porquê? Primeiro, uma sociedade irracional justifica a sua irracionalidade com mitos. Ensina crenças distorcidas: de que o mundo é uma selva, que os homens são animais, que alguns homens são mais animais que outros, que todos os homens nasceram para pecar ou com a necessidade de serem violentos, que só os duros é que prosperam, que a maior parte dos homens deseja ser mandado, que felizmente outros nasceram para serem os seus chefes, e que tudo isto é escolhido por Deus ou ordenado pela evolução.(...) Nenhum homem pode aceitar que é irracional e inferior e depois comportar-se racionalmente. A opinião que cada homem tem de si próprio torna-se parte do seu comportamento. Autoriza-o. Segundo, e talvez ainda mais seriamente, o nível mental e intelectual dos homens tem consequências emocionais.