21.3.04

Lost in Translation

não resisto a copiar este belíssimo texto da Ana Sá Lopes na edição de hoje no Público.
só uma pequena observação antes do texto da Ana, o filme é imperdível!!!

«A Impossível Tradução

Só esta semana vi o "Lost in Translation", de Sofia Coppola, a mais perfeita história de amor que o cinema me deu a ver nos últimos tempos. "Lost in Translation" é sublime, porque durante todo aquele espaço é atingida a límpida medida que une uma extrema sensualidade a uma essencial (para aquela história) contenção - e a história de amor é esse movimento de esplêndida atracção e sóbria retracção que Sofia Coppola filma perfeitamente.

"Lost in translation" tem o final possível, o único final para uma história assim: os dois consumam o amor (com um beijo), mas a consumação é a despedida e, só por assim o ser, é que ficamos perante uma absoluta felicidade. Foi provavelmente um dos mais belos finais felizes que me lembro de ver num filme: a radical sabedoria dos protagonistas não os deixa ignorar que "qualquer coisa a mais" perder-se-ia com a tradução do espaço, com o voo para outra cidade, com o quotidiano das alcatifas.

O absolutamente fascinante é como os dois têm consciência de que assim é, de que aquele é um "amor no estrangeiro" e ceder um milímetro, contrariar o destino de um "amor no estrangeiro", levá-los-à a ser devorados por uma tradução impossível. Scarlett Johanson não irá discutir as alcatifas, qualquer movimento a mais levá-la-ia a discutir alcatifas, voltará ou não para o marido fotógrafo bronco. Mas aquele amor com Bill Murray é intraduzível para outro espaço.

Em "Lost in Translation", a história tem tanta importância como a geografia. Estamos em Tóquio que, como Xangai ou Jacarta ou outras metrópoles asiáticas, potencia a vertigem no ocidental - a começar pelo ocidental que esteja algo só ou se sinta algo estúpido ou as duas coisas ao mesmo tempo, que era o caso do homem e da mulher do filme.

A estranhíssima sensualidade dos hotéis de quatro estrelas, exponencial no caso dos asiáticos, a esplêndida estranheza dos karaoke e bares de "strip", a mistura de duas solidões e um espaço desconhecido, são factos mais ou menos comuns e já contados e repetidos em várias ocasiões - acontece que Sofia Coppola filma tudo com uma "mão" inexcedível, Scarlett Johansonn é brilhante e o velho actor contratado para fazer anúncios em Tóquio, Bill Murray, é uma personagem maravilhosa. São os dois muito vulneráveis e o lugar daquele amor é também esse, o de uma terrível vulnerabilidade. E também por isso intraduzível.»