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30.3.05

O Referendo

Ana Sá Lopes explicou o que deveria ser discutido no referendo sobre o aborto:

«A questão de se ser a favor ou não do recurso ao aborto é radicalmente diferente de se ser favorável ou contrário à sua despenalização e só isto deveria ser discutido e é matéria do referendo.»

simples & claro, para que não restem dúvidas a ninguém!

2.9.04

O Barco que Perdeu as Graças do Ministro do Mar

alguns textos sobre o barco que ameaça a segurança nacional.

«Siga a Marinha do CDS
Por ANA SÁ LOPES
Quarta-feira, 01 de Setembro de 2004

A primeira reacção pública de Paulo Portas à polémica do barco interdito não podia ter sido mais reveladora do estilo, do homem e do grande objectivo político desta operação da marinha de guerra contra o barco da Women on Waves.

O primeiro responsável pela proibição da entrada nas águas territoriais da embarcação apareceu ontem, no noticiário das oito da TVI, em directo da sede do CDS/PP, tendo como cenário a bandeira do partido e a bandeira nacional, confirmando com esse pequeno acto simbólico a única razão pragmática que presidiu à proibição do barco: fazer valer a autoridade do CDS no Governo e contar espingardas para o futuro.

O que é mau para o Governo não é necessariamente mau para o CDS. A proibição e a ronda das corvetas cobre o Governo de ridículo, mas contenta o eleitorado específico que Paulo Portas não quer ver fugir para o PSD, que o futuro da coligação não é seguro. Paulo Portas pôs a Marinha de Guerra ao serviço do CDS e foi, como ministro da Defesa, à sede do CDS, num discurso embrulhado com a bandeira do CDS, explicar a decisão do Governo: "O mar territorial não é uma selva"; sem a acção das corvetas neste momento específico, "nenhuma autoridade nacional teria legitimidade para combater o tráfico de droga, a pesca ilegal e a imigração clandestina". O PSD, a parte dele que não se revê neste discurso, fica a ver navios - apanha com o ridículo e é provável que não ganhe nada com isso.

Jorge Sampaio, entretanto, lembrou ontem que ainda é o comandante supremo das Forças Armadas e anunciou que, amanhã, pedirá explicações ao primeiro-ministro. Tendo em conta que a crise começou na sexta-feira à noite, a pronta reacção do chefe de Estado é, mais uma vez, de registar.

O mais sórdido, obviamente, não é isto. O verdadeiramente sórdido é que, com a complacência generalizada, Portugal continue a ter uma lei do aborto que envia para a Clínica dos Arcos, em Badajoz, ou para a Clínica El Bosque, em Madrid, as mulheres que precisam de abortar. Destas clínicas sabem-se os nomes porque, diariamente, sem que ainda tenha havido qualquer operação terrestre na fronteira, anunciam os seus serviços nos jornais e têm alvará do Ministério de Saúde espanhol. As outras, as da marquise da enfermeira da maternidade que não vêm nos jornais, contribuem para a miséria nacional e não valem o esforço de uma corveta de guerra.»

«Mártires católicos arriscam a vida
# um artigo de Carlos Esperança, publicado às 17:27

Portugal esteve prestes a ser invadido por uma poderosa esquadra pecadora, fortemente armada com mísseis RU-486, que atingem rapidamente o útero grávido de poucas semanas de qualquer mulher que despreze o papa e enjeite a salvação da alma.
Perante o perigo iminente, valeu-nos o pio ministro de Estado, da Defesa e do Mar, fortalecido por muitas hóstias e numerosas missas, que, além do apoio nunca regateado da senhora de Fátima, mandou aprontar uma fragata cuja tripulação se compromete a dar a vida em defesa da moral e dos bons costumes, impedindo a profanação das águas territoriais pelo «Barco do Aborto».
Paulo Portas e Santana Lopes estão de prevenção para enfrentar a invasão. Traquejados em guerras preventivas (táctica experimentada no Iraque, com o êxito que se conhece), puseram a Marinha a perseguir a esquadra invasora, certos da vitória final. Em caso de fracasso, preparam-se para morrer como mártires de Deus, rezando o terço e gritando: «Nossa Senhora de Fátima rogai por nós».

«UMA PERIGOSA ESTUPIDEZ
13:20 José Pacheco Pereira

As revistas feitas pela Polícia Marítima a um barco português só se justificam caso haja séria suspeita de que este esteja envolvido numa actividade criminosa. Não se fazem revistas a um barco (ou a um carro, ou seja lá o que for) para intimidar as pessoas que lá vão. As forças armadas portuguesas não podem ser usadas para acções de intimidação contra cidadãos que não estão a violar nenhuma lei, mesmo que não se concorde com as suas acções e opiniões. As forças armadas portuguesas não podem ser usadas para servir de cobertura a encenações políticas. O Presidente da República é posto directamente em causa se não fizer ou disser nada.»


«UMA CARA ESTUPIDEZ
12:22 José Pacheco Pereira

Mas que cara estupidez é essa de ter dois barcos de guerra a controlar um pequeno barco, só para fazer figura? Não estou aqui a discutir a decisão de impedir o barco de atracar, que é uma outra questão. Só pergunto se não há outros meios mais baratos e discretos de controlar um barco nas águas internacionais. É que este espavento, (caro, insisto), é uma marca de água do ocupante da Defesa, que envergonha os militares sob sua alçada. Show off.»

21.3.04

Lost in Translation

não resisto a copiar este belíssimo texto da Ana Sá Lopes na edição de hoje no Público.
só uma pequena observação antes do texto da Ana, o filme é imperdível!!!

«A Impossível Tradução

Só esta semana vi o "Lost in Translation", de Sofia Coppola, a mais perfeita história de amor que o cinema me deu a ver nos últimos tempos. "Lost in Translation" é sublime, porque durante todo aquele espaço é atingida a límpida medida que une uma extrema sensualidade a uma essencial (para aquela história) contenção - e a história de amor é esse movimento de esplêndida atracção e sóbria retracção que Sofia Coppola filma perfeitamente.

"Lost in translation" tem o final possível, o único final para uma história assim: os dois consumam o amor (com um beijo), mas a consumação é a despedida e, só por assim o ser, é que ficamos perante uma absoluta felicidade. Foi provavelmente um dos mais belos finais felizes que me lembro de ver num filme: a radical sabedoria dos protagonistas não os deixa ignorar que "qualquer coisa a mais" perder-se-ia com a tradução do espaço, com o voo para outra cidade, com o quotidiano das alcatifas.

O absolutamente fascinante é como os dois têm consciência de que assim é, de que aquele é um "amor no estrangeiro" e ceder um milímetro, contrariar o destino de um "amor no estrangeiro", levá-los-à a ser devorados por uma tradução impossível. Scarlett Johanson não irá discutir as alcatifas, qualquer movimento a mais levá-la-ia a discutir alcatifas, voltará ou não para o marido fotógrafo bronco. Mas aquele amor com Bill Murray é intraduzível para outro espaço.

Em "Lost in Translation", a história tem tanta importância como a geografia. Estamos em Tóquio que, como Xangai ou Jacarta ou outras metrópoles asiáticas, potencia a vertigem no ocidental - a começar pelo ocidental que esteja algo só ou se sinta algo estúpido ou as duas coisas ao mesmo tempo, que era o caso do homem e da mulher do filme.

A estranhíssima sensualidade dos hotéis de quatro estrelas, exponencial no caso dos asiáticos, a esplêndida estranheza dos karaoke e bares de "strip", a mistura de duas solidões e um espaço desconhecido, são factos mais ou menos comuns e já contados e repetidos em várias ocasiões - acontece que Sofia Coppola filma tudo com uma "mão" inexcedível, Scarlett Johansonn é brilhante e o velho actor contratado para fazer anúncios em Tóquio, Bill Murray, é uma personagem maravilhosa. São os dois muito vulneráveis e o lugar daquele amor é também esse, o de uma terrível vulnerabilidade. E também por isso intraduzível.»