os sentimentos atrasam,
as paixões atrasam,
as instituições atrasam,
está tudo a mais, nesse demais sempre a pesar sobre a existência, ela própria uma ideia a mais,
filósofos, sábios, médicos, padres, pouco a pouco, de mansinho e brutalmente, têm-nos feito esta vida falsa
porque não há profundidade nas coisas, não há além, nem mais voragem do que a que formos capazes de lá pôr
já,
sem ideia nem entidade,
sem imanência nem instância,
nada me espera para pedir contas,
mas eu tenho contas a pedir a alguns ignóbeis velhos labregos da doutrina,
contas a pedir por retardarem a vida com os seus sentimentos, paixões, instituições.
Quando a minha mão arde,
há o facto nu da mão a arder,
não a ideia desse acontecer,
ter o sentimento de me arder a mão é entrar num domínio diferente,
a ideia da mão a arder retira-me da minha mão, põe-me em estado de imprevisão, obra do espírito espião que quer que lhe ceda, não só a minha mão e a sua dor, mas todo um mundo de concepções.