extraído novamento do Público:
CRÍTICA DE TEATRO
Por PAULO TRINDADE
Segunda-feira, 15 de Março de 2004
Sexo, honestidades e TV Cabo
Os Artistas Unidos apresentam-se mais uma vez fora do seu actual poiso, o Teatro Taborda, que é como quem diz "fora de casa". Mas aplicar a expressão "fora de casa" ao seu caso é, no mínimo, incoerente, já que nem sequer têm casa. A espera pelo Centro das Artes da Capital mantém-se, a par da espera por Godot: qual vai chegar primeiro? Aceitam-se apostas (endereçadas à Câmara Municipal de Lisboa).
A Sala de Ensaio do Centro Cultural de Belém recebe "O Amor de Fedra" (1996), integrado num ciclo dedicado à dramaturga britânica Sarah Kane. Este é o quarto espectáculo criado a partir de um texto da autora, encenado por Jorge Silva Melo e Pedro Marques, no qual se consegue uma consistente apropriação do universo de Kane.
As acções que têm lugar em palco são totalmente enformadas pelo visceral desejo de Fedra (Teresa Sobral) por Hipólito (Miguel Borges), o seu enteado, e as tentativas de ambos para contornar as directrizes sociais: Fedra pela necessidade de satisfazer o desejo que a consome, Hipólito pela fragilização do seu estatuto de príncipe em prol de um estado de anárquica indiferença. A fisicalidade de Fedra é estática e tensa, por oposição à de Hipólito que é sobretudo despojada e autista. Neste, há uma honestidade que o deixa soterrado em si próprio, e até indiferente ao prazer. De facto, quando Fedra e o padre, em dois momentos distintos, lhe prestam sexo oral, pouco mais conseguem que um olhar vazio e silencioso. O gesto que os dois executam é o mesmo, apenas muda a personagem: uma é uma mulher e é sua madrasta, a outra é um homem e é um padre católico. O género e o papel social das personagens com quem se relaciona sexualmente são-lhe indiferentes. E esta é uma forma possível de minar e relativizar as estruturas e certezas sociais vigentes.
Hipólito nada faz, apenas existe no seu recanto imundo, no lado esquerdo do palco, em oposição a uma espécie de coro da multidão, no lado direito. O palco está coberto de longos panos que vão sendo arredados por Hipólito e pelos membros do coro, em direcções opostas, até que Hipólito fica, literalmente, sem chão debaixo dos pés. Hipólito age e o coro vigia-o. O coro vai-se enrolando, de forma quase imperceptível, nos panos, esculpindo uma fabulosa massa corporal que silenciosamente prepara o gesto final, a morte de Hipólito.
A última parte do espectáculo, em que se verifica o linchamento popular de Hipólito, é excelente. A massa corporal que tinha estado somente a vigiar as acções de Hipólito passa, agora, a agir ela própria, transformando-se numa espécie de coro tentáculo, que não o deixa impune (por um crime, a violação de Fedra, que não cometeu). Cada membro do coro transporta consigo uma lanterna com que vai iluminando fragmentos dos corpos, expondo as expressões de agonia (a visibilidade do suplício) e obscurecendo os movimentos vorazes e esmagadores da multidão em fúria (a invisibilidade das práticas disciplinares). Resultado: o fim do indesejável corpo honesto.
EM RESUMO
Uma consistente encenação do desejo/condenação do corpo honesto.