um texto de Alexandre Cruz Almeida sobre esta época que atravessamos:
«Quebrem a Corrente da Culpa
Não me mandem votos de Feliz Natal.
Eu sou ateu, considero Jesus (se é que existiu) apenas um sujeito muito boa praça e, aliás, a própria Bíblia, por suas evidências internas, indica que ele nasceu em final de setembro. A data em final de dezembro é bastante posterior à época bíblica e foi criada para opor o natal cristão às comemorações pagãs pelo solstício de inverno.
Não me mandem votos de Feliz Natal!Em suma, essa porra dessa data não quer dizer nada, nem pra quem é cristão de carteirinha e ama Jesus, então, por favor, não venham me aporrinhar com felizes natais.
Houve época em que eu mandava cartões de natal. Cruzes, eu até pintava os meus próprios cartões. A mão. Um por um. Não por amor à Jesus ou ao cristianismo, claro, pois ateu eu sempre fui, mas por amor ao sentimento natalino.
Que piada.
Depois comecei a ver que mandar cartões de natal era, de fato, uma grande maldade. Você está apenas contribuindo para uma grande corrente de culpa, que parece ter sido iniciado por nossas mães e que nunca mais acabará. A pessoa recebe um cartão e pensa: puxa, eu não mandei nada pra ele, eu não comprei nada pra ele, eu não falo com ele há meses/anos, caramba, que chato, e agora? Sou mesmo um cretino.
Pior, os meus cartões, por serem tão originais, pintados à mão e o escambau, deveriam aumentar ainda mais o sentimento de culpa. Afinal, como competir com isso? Vou me sentir uma ingrata se mandar um simples cartão do Garfield em resposta a um cartão desses! E agora? Só se eu for lá e der pra ele! (Infelizmente, ninguém chegou a esse ponto.)
O natal é a temporada da culpa. Sentimos culpa por não termos sido melhores, por não termos ido mais à igreja, por não termos ligado tanto para a Tia Clotilde, no Paraná, por não termos sido bons pais, filhos, irmãos ou maridos, por não termos tido tempo pra fazer cartões de natal tão bonitos quanto os que recebemos, etc.
Já há tanta culpa circulando, tentemos não dar nossa contribuição.
Eu imploro: quebrem a corrente de culpa!
Todo Mundo Não Sou Eu
Agora, toda vez que dou feliz natal para um leitor, ele diz: ué, feliz natal, vindo de você?
Sim, feliz natal vindo de mim. Não parto do princípio que todas as pessoas do mundo são iguais a mim. Pelo contrário, sei que são bem diferentes. Desejo feliz chanucá pros meus amigos judeus, por que não desejaria feliz natal aos meus amigos cristãos? Mas não gosto que me desejem nem feliz natal nem feliz chanucá. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Então, para quem comemora o chanucá, feliz chanucá. Para quem comemora o natal, feliz natal.
Para quem não comemora nada, bem... boa noite?»
a esta hora é: Boa Tarde, Alexandre!